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Punto Cero

versão On-line ISSN 1815-0276

Punto Cero v.15 n.20 Cochabamba  2010

 

 

 

Em Busca das representações de Fernando Lugo na mídia impressa brasíleíra: aproxímando-se do objeto de pesquísa através do relato de fontes qualificadas

 

In search of representations of Fernando Lugo in the Brazilian media: approaching the research object through the report of qualified sources

 

 

Rafael Foletto

Brasileiro. Graduado em Ciências Sociais (2008) e em Comunicação Social – habilitação em Relações Públicas (2009) pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Membro do Grupo de Pesquisa Processos comunicacionais: epistemologia, midiatização, mediações e recepção – PROCESSCOM (CNPq/CAPES/UNISINOS).

rafolelto@gmail.com

 

 


Resumo

O artigo reflete sobre os relatos trazidos pela entrevista com o pesquisador e membro do governo paraguaio, Juan Díaz Bordenave, visto como uma fonte qualificada de informação, por participar da campanha que elegeu o novo governo paraguaio. Observado no sentido de contextualizar o atual panorama político, social, comunicacional do Paraguai. Integrando uma pesquisa, na qual analisaremos sistematicamente as representações simbólicas de Fernando Lugo construídas pelas principais revistas semanais brasileiras. Pensamos que o referido exercício se apresenta como fundamental para ampliar a compreensão da problemática de investigação, trazendo novos dados e contornos teóricos e metodológicos.

Palavras chave: métodos e técnicas de pesquisa, Fernando Lugo, Juan Díaz Bordenave


Resumen

El artículo refleja los relatos traídos de una entrevista con el investigador y miembro del gobierno paraguayo, Juan Díaz Bordenave, visto como una fuente calificada de información, por participar de la campaña que eligió el nuevo gobierno paraguayo. Observado en el sentido de contextualizar el actual panorama político, social, comunicacional de Paraguay. Integrando una investigación, en la cual analizaremos sistemáticamente las representaciones simbólicas de Fernando Lugo construidas por las principales revistas semanales brasileñas. Pensamos que el referido ejercicio se presenta como fundamental para ampliar la comprensión de la problemática de investigación, trayendo nuevos datos y contornos teóricos y metodológicos.

Palabras clave: métodos y técnicas de investigación, Fernando Lugo, Juan Díaz Bordenave


Abstract

The article reflects about the reports brought by the interview with the investigator and member of the Paraguayan government, Juan Díaz Bordenave, seen as a qualified source for participating of the campaign that elected the new Paraguayan government. Observed with the objective of contextualizing the current political, social and communicational scenario of Paraguay. Integrating an inquiry, in which we will analyze systematically the symbolic representations of Fernando Lugo built by the main Brazilian weekly magazines. We think that the above-mentioned exercise presents itself as basic to enlarge the understanding of the problematic of investigation, bringing new data and theoretical outlines and methodology.

Keywords: methods and techniques of research, Fernando Lugo, Juan Díaz Bordenave


 

 

Introdução

O caminho que conduz a nossa pesquisa, intitulada "De bispo a presidente: as representações de Fernando Lugo na mídia brasileira", é investigar os processos midiáticos de construção das representações do Presidente do Paraguai, Fernando Lugo, na mídia hegemónica empresarial brasileira, a tratar, as revistas semanais de circulação nacional, a exemplo das publicações Carta Capital, Época, Isto É e Veja. Ou seja, buscamos observar sistematicamente os posicionamentos, pensamentos, sentidos, estratégias utilizadas pela mídia impressa brasileira, no caso as revistas semanais, para construir as representações do bispo católico e agora chefe de Estado, Fernando Lugo.

Compreendemos a importância da ação das mídias na configuração, ativação e atualização das representações e, dessa forma, indagamos como ocorrem os movimentos de produção das representações simbólicas da figura do presidente Lugo nas revistas semanais brasileiras. Visto de outra forma, queremos problematizar quem é Fernando Lugo, em termos de ator midiatizado, e quais são as estratégias de comunicação empreendidas pela mídia impressa brasileira no processo de construção das representações desse ator.

Assim, atentamos para o fato de que o surgimento do presidente do Paraguai, como uma nova figura midiática, aciona estratégias comunicacionais de produção midiática das revistas citadas, para a construção da figura política, atrelando-a a elementos sociais, culturais, históricos e simbólicos do contexto latinoamericano, bem como a configurações particulares de cada uma dessas mídias. Da mesma forma, observamos, que uma contextualização dos aspectos sociais, históricos, culturais e políticos, no qual o nosso objeto de estudo se encontra inserido, é imprescindível para expandir a compreensão dos processos midiáticos e das realidades de produção e de leitura que os constituem.

Para tanto, procuramos apresentar o problema de pesquisa, contextualizando-o com a importância do relato do Professor Juan Diáz Bordenave, comunicador e pesquisador paraguaio, que participou da campanha que elegeu Lugo, e que agora atua no governo do país, como assessor do Ministério da Comunicação. Dessa forma, buscando sinais que apontem para a compreensão do panorama interno do Paraguai. Ainda, refletiremos sobre os procedimentos, táticas, experimentações metodológicas empregadas na pesquisa.

 

1. Na trilha de Fernando Lugo

Apresentaremos o quadro que melhor dimensiona o nosso problema-objeto, buscando as configurações que caracterizam Fernando Lugo enquanto figura midiática instigante. Contextuali-zando os aspectos históricos, simbólicos, económicos e políticos que o permeiam.

Observando o recente momento político do continente latinoamericano, percebemos que após a onda neoliberal, que orientou as políticas de Estado nos anos 1980 e 1990, provocou profundas crises nas formações sociais da região. Surgiu uma série de governos com forte apelo popular, dispostos a mudanças substanciais no aparelhamento e redefinição do papel do Estado na instância socioeconômica, política, cultural e comunicacional. São exemplos deste tipo de mudança no horizonte das transformações políticas, países como Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina, Uruguai e, mais recentemente, Paraguai.

Neste último, um bispo da Igreja Católica, Missionários do Verbo Divino1 e fortemente identificado com a Teologia da Libertação, Fernando Armindo Lugo de Méndez, liderando uma heterogénea Alianza Patriótica para el Cambio (APC) e apoiado por dezenas de organizações políticas e sociais, percorre uma trilha meteórica e triunfa nas eleições presidências, no dia 20 de abril de 2008, configurando-se como um caso inédito na turbulenta história política do Paraguai, pois conforme Sánchez:

"Hablar de esta posibilidad, tres años antes, era no solo poco creíble sino inimaginable. Además del Partido Colorado, los demás partidos tradicionales (o conservadores) opositores carecían de proyectos aglutinantes y la izquierda todavia estaba lejos de alcanzar una proyección política protagónica" (SÁNCHEZ 2009: 1).

Após 35 anos de regime autoritário liderado por Alfredo Stroessner, o Partido Colorado, que sustentava a ditadura, seguiu no poder, assim como os generais e a oligarquia. Essa elite conduziu o Paraguai à onda neoliberal que assolou a América do Sul (a exemplo do governo Collor, no Brasil; Menen, na Argentina e Fujimori no Peru), tornando-se um território de corrupção, contrabando e narcotráfico, elementos que permeiam o imaginário brasileiro referente ao país. Contudo, no bojo das bases sociais ocorreu uma reorganização de movimentos populares e sindicais que mobilizados, sobretudo pelas Comunidades Eclesiais de Base, diminuíram progressivamente a hegemonia do Partido Colorado e forjaram o terreno político para a vitória eleitoral de Lugo, que nunca havia atuado na política partidária.

Assim, depois de mais de 60 anos de comando do Partido Colorado, o Paraguai assiste a uma verdadeira alternância de poder e se enche de esperança, por meio da chegada as mais altas funções do Estado, do bispo Fernando Lugo, sustentado pela Aliança Patriótica para a Mudança, que congrega dez partidos políticos e vinte movimentos sociais articulados sob o Movimento Popular Tekojoja2.

Percebemos que o novo cenário político paraguaio assinala que é preciso atentar para a temática das relações entre Brasil e Paraguai. Entre as questões que devem merecer atenção especial dos dois governos, sobressaem-se as reivindicações paraguaias referentes à Itaipu e o fenómeno da migração entre os dois países, justamente os dois principais pontos do programa de governo de Fernando Lugo. Ainda, segundo Codas (2008), três temas formam a pauta da nova relação entre os dois países:

"Primeiro, a renegociação do Tratado de Itaipu. Segundo, os resultados da invasão de boa parte do território oriental paraguaio por latifundiários brasileiros produtores de soja (iniciado nos anos de 1970). Terceiro, a integração ao Mercosul com uma verdadeira compensação das assimetrias deste pequeno e pobre país em relação aos dois maiores sócios deste projeto - Brasil e Argentina" (CODAS 2008: 8).

Ainda, buscamos compreender as estratégias que a mídia impressa brasileira adota para representar o presidente Fernando Lugo no bojo dos assuntos cruciais para a integração entre Brasil e Paraguai, explicitando ou não elementos históricos e simbólicos referentes às relações entre os países vizinhos, adotando procedimentos semelhantes a outros acontecimentos nesse âmbito, como o caso da Petrobras com a Bolívia em 2006, quando mídia hegemónica brasileira praticamente incitou o país à guerra contra aqueles que prejudicavam os interesses nacionais.

Dessa forma, torna-se imprescindível buscar um relato de dentro do processo estudado, como uma forma de reflexão metodológica que possibilite contextualizar e ampliar a compreensão do objeto de pesquisa.

 

2. Da entrevista enquanto recurso metodológico de contextualização

A entrevista se constitui em um importante procedimento/formato de coleta de dados utilizado nas pesquisas no âmbito das Ciências Sociais e Humanas. Segundo Minayo (2002), as pesquisas qualitativas no âmbito das Ciências Sociais e Humanas trabalham com nuances como significados, motivações, valores e crenças, que não podem ser simplesmente reduzidos às questões quantitativas, pois dizem respeito a noções particulares. No entanto, os dados quantitativos e os qualitativos se complementam no bojo de uma investigação.

Entendemos que o ponto de partida de uma pesquisa científica deve se basear em um levantamento de dados, ou seja, em um trabalho de pré-observação do objeto de pesquisa, que se constitui em um primeiro contato com os elementos que compõem a problemática de investigação, o processo que se quer estudar, o recorte da realidade que se deseja problematizar. Assim, essa experiência de pré-observação se apresenta como uma forma de olhar os fatos, processos ou fenómenos no intuito de ampliar as informações, os dados, as pistas referentes à problemática estudada.

Para tanto, o pesquisador pode lançar mão de diferentes técnicas, recursos, procedimentos metodológicos como a observação participante, a entrevista, grupos focais, histórias de vida. Assim, a opção por um método ou por um conjunto metodológico, dependerá da adequação com o objeto de pesquisa, enfim, em entender o que a problemática suscita. Ainda, esse movimento de procura por novos dados, novos contextos, pontos de vista, ocasionando que, não raras vezes, reestruture-se o problema de pesquisa, dando-se ênfase em outros aspectos e processos que antes não eram percebidos.

Da mesma forma, Bourdieu (1998) observa que a escolha do método não deve ser rígida, mas sim rigorosa, em outras palavras, o pesquisador não necessita seguir um método apenas com rigidez, entretanto, qualquer método ou conjunto de métodos que forem utilizados devem ser empregados com rigor. Ainda, Ander-Egg (1976: 44) aponta para a ideia de método como sendo "el camino a seguir mediante una serie de operaciones y regias prefijadas de antemano aptas para alcanzar el resultado propuesto".

Uma das maneiras de se obter dados seria a entrevista, definida por Haguette (1997: 86) como um "processo de interação social entre duas pessoas na qual uma delas, o entrevistador, tem por objetivo a obtenção de informações por parte do outro, o entrevistado". Da mesma forma, para Duarte:

"entrevistas são fundamentais quando se precisa/deseja mapear práticas, crenças, valores e sistemas classificatórios de universos sociais específicos, mais ou menos bem delimitados, em que os conflitos e contradições não estejam claramente explicitados" (DUARTE 2004: 215).

A entrevista permite explorar e captar elementos pertencentes à complexidade do processo estudado, mediante informações, percepções, visões, experiências de informantes, assim como compreender de que forma determinado atributo é percebido pelo entrevistado, fornecendo elementos para a observação de uma determinada situação ou estrutura do problema. Sendo igualmente útil para trabalhar com problemas complexos ao permitir uma compreensão de relatos provenientes de experiências e interpretação, a exemplo de relatos das representações. De maneira geral, a entrevista se apresenta como um importante recurso para compreender a visão de mundo dos sujeitos sociais. Na ótica de Ander-Egg, a entrevista:

"Es uno de los procedimientos más utilizados en Ia investigación social, aunque como técnica profesional se usa em otras tareas; el pesiquiatra, el psicoterapeuta, el psicólogo, el trabajador social, el médico, el sacerdote, el periodista, etc. hacen empleo de ella para sus diversos fines, procurando de ordinário algo más que Ia recopilación de datos (como en el caso de Io investigador social), puesto que se Ia utiliza también para informar, educar, orientar, motivar, etc, conforme el propósito profesional que se persigue" (ANDER-EGG 1976: 109).

Há diferentes formas de entrevista, variando conforme a aplicação profissional que se faz dela, no âmbito da investigação social se pode conceder, para o autor, as seguintes modalidades: entrevista estruturada e entrevista não estruturada. Dentro dessa última existem ainda três formas distintas de entrevistas: focalizada, clínica e não dirigida.

A entrevista estruturada se realiza mediante um questionário, no qual as perguntas são previamente formuladas, procurando-se não fugir da ordem na qual foram planejadas3. Já a entrevista não estruturada, por seu turno, permite uma maior liberdade tanto para o entrevistado, quanto para o entrevistador, constituindo-se, geralmente, por perguntas abertas, que são respondidas dentro de uma conversação que é informal4.

Quanto às modalidades de entrevista, derivadas do tipo não estruturada, pode-se dizer que a entrevista focalizada busca analisar a experiência pela qual várias pessoas passaram, para tanto, o entrevistador formula perguntas derivadas do problema que deseja estudar, focalizando a entrevista em questões que proporcionem esclarecimentos referentes a esse problema. Já a entrevista clínica, procura estudar as motivações e sentimentos dos entrevistados, por intermédio de questões baseadas nesses sentimentos e atitudes. E, a entrevista não dirigida, o entrevistador assume uma postura de ouvinte, dando vazão à fala, opinião e sentimentos do entrevistado, animando-o e orientando-o a relatar um determinado tema.

Nesse sentido, entendemos que o uso da entrevista aberta, com o professor Juan Díaz Bordenave, como recurso metodológico para explorar questões pertinentes para a contextualização e compressão da problemática de investigação, mostrou-se pertinente para a reflexão e exploração de elementos teóricos e metodológicos que permeiam o problema de pesquisa, a exemplo da noção de estratégias de comunicação.

Ainda, observamos o professor Bordenave, como uma fonte qualificada de informação, já que participou da campanha eleitoral de Lugo e atualmente é membro do governo, ocupando o cargo de assessor do Ministério da Comunicação. Nesse momento de estruturação da problemática de investigação e de busca de uma contextualização da realidade a ser observada, surgia como fundamental, no sentido de fomentar um movimento de reflexão e reorganização das ideias orientadoras/ geradoras/ suscitadoras da pesquisa.

O movimento de contextualização do objeto de pesquisa é parte importante e decisiva, definindo as relações do objeto com a realidade em que se encontra inserido. Nesse sentido, a realização de uma pesquisa exploratória, conforme Maldonado (2006: 195), torna-se um momento "para testar procedimentos de pesquisa que poderiam se revelar promissores para serem aplicados posteriormente". Assim, é mister realizar movimentos de aproximação ao objeto empírico para estruturar a construção da pesquisa. Ainda, segundo Lopes (2006) impõe-se a necessidade de realização de fortes movimentos de aproximação empírica para dar conta dos objetos "móveis, nómades, de contornos difusos" inerentes ao campo da comunicação. Assim, provocada pelas reconfigurações nas dinâmicas que conformam os objetos do campo, a investigação no âmbito dos estudos comunicacionais enfrenta a necessidade de configurar as suas problemáticas com intensa atenção à dinâmica concreta dos objetos de pesquisa.

Pensamos que a problematização dos exercícios de experimentação metodológica, dos seus usos, do movimento de análise e interpretação dos dados obtidos, de busca de aportes teóricos que os sustentem, contribuem efetivamente para a construção do problema de pesquisa, bem como para o encaminhamento de estratégias metodológicas que fujam das tradicionais "receitas de bolo" e que de fato dêem um olhar transversal para tratar o objeto, as perguntas de pesquisa, os objetivos da investigação, enfim, para permitir o avanço na construção do conhecimento, visto por Santos (2009), como prática social.

 

3. O relato de Bordenave

A entrevista, na ótica de Brandão (2000: 8), é trabalho, alerta, e como tal "reclama uma atenção permanente do pesquisador aos seus objetivos, obrigando-o a colocar-se intensamente à escuta do que é dito, a refletir sobre a forma e conteúdo da fala do entrevistado", além, é claro, dos tons, ritmos e expressões gestuais que acompanham ou mesmo substituem essa fala e isso exige tempo e esforço.

No decorrer do processo da entrevista, segundo Bourdieu (1998), torna-se necessário ler nas entrelinhas, ou seja, observar e as estruturas invisíveis que organizam o discurso do entrevistado. Nesse sentido, do conjunto do material trazido pela entrevista, deve-se atentar para os elementos, implícitos ou não, que se encontram diretamente relacionados aos objetivos da pesquisa, sendo justamente isso objeto de leitura, procurando-se, assim, extrair pontos do relato que favoreçam o entendimento do processo que se objetiva estudar.

Ainda, a entrevista é visualizada como uma técnica marcada pela subjetividade, pois conforme Bertaux (2005), os relatos são subjetivos e permeados pela influência de diversos fatores, como a necessidade de considerar que a memória individual é parte integrante da memória coletiva.

Assim, exploraremos o procedimento de entrevista aberta com Bordenave, sob a ótica de três parâmetros construídos através de inferências do seu relato - antecedentes, cenário interno e observação das mídias.

3.1 Antecedentes

O importante movimento de contextualização da problemática de investigação, consiste em articular as premissas iniciais da pesquisa com o relato trazido por Bordenave dos antecedentes da ascensão de Fernando Lugo.

Dentro desse parâmetro de observação, tomamos conhecimento de um significativo movimento político que lançou e deu sustentação para a candidatura de Lugo, o Tekojoja. Para além da coalizão de diversos partidos, esse movimento, exerce importante influência nos rumos do governo paraguaio. Pertence a ele a formulação das diretrizes quem compõem o programa de governo de Lugo e a orientação dos movimentos populares que compõem a base de apoio, como o campesino.

Bordenave, também enfatiza o caráter de alternância, de mudança, de "cambio" relativo ao governo, frente a 62 anos de poder do Partido Colorado, em que tudo "se coloradizou" no Paraguai. Fazendo com que esse partido estendesse seus poderes no judiciário, no Congresso nacional e no executivo e que assim desenvolvesse uma política assistencial, prebendaria e clientelista, que contribuiu para desarticular o movimento social. Esse longo processo resultou numa das piores concentrações de terra, no avanço desproporcional do agronegócio, principalmente da soja e dos biocombustíveis.

Frente a tal cenário, Lugo serviu de figura aglutinadora, uma vez que vinha da área eclesial e da ala progressista identificada com as lutas camponesas. Isso significava a simpatia das maiorias indígenas e populares. O processo foi acontecendo de modo lento, até que o ex-bispo católico chegou surpreendentemente ao poder político do país, por meio da Aliança Patriótica para a Mudança.

3.2 Cenário interno

Conseguimos dimensionar as ações políticas empreendias pelo governo Lugo, o cenário político interno, através do panorama trazido por Bordenave.

Entre ações realizadas pelo governo paraguaio, o entrevistado destaca as do campo da comunicação, como a implantação de "uma agência de notícias do Estado. E, também, a transparência total das informações públicas. Além da criação de uma nova carreira, de técnico em Comunicação para o Desenvolvimento".

No campo político, Bordenave aponta para a criação de "uma frente social e popular com o povo que não é filiado ao Partido Liberal", com o propósito, segundo o entrevistado de "Defender Lugo. Fazem mobilizações nas ruas. E também mesas de trabalho. Há 17 delas, sobre transporte, educação, buscando propostas de governo. Não é um partido, é uma frente".

Ainda, Bordenave observa que diante de um cenário político marcado pela heterogeneidade e a desconfiança, devido à composição das diferentes forças e partidos que fazem parte da Aliança, o governo Lugo "necessita do apoio do povo para poder fazer as coisas", pois além do mais, não possui a maioria no congresso.

3.3 Observação das mídias

Um parâmetro importante para a nossa pesquisa é a observação das mídias, das estratégias comuni-cacionais empregadas para representar o líder do novo governo paraguaio. Nesse sentido, o relato de Bordenave trouxe elementos pertinentes para observar essa questão. Como a afirmação de que "a imprensa está contra Lugo. Os três principais jornais do país estão contra Lugo".

Assim, aliada à instabilidade política que marca a conjuntura de forças que compõem o governo, Lugo também não possui respaldo da mídia hegemónica nacional. Segundo Bordenave, "no inicio do governo existia até certa distância e paciência da mídia ao tratar o novo governo". No entanto, quando observaram que Lugo começou a se aproximar de Evo Morales, de Hugo Chávez, as criticas ao presidente aumentaram e se tornaram mais fortes, "um terror", nas palavras do entrevistado.

Ainda, Bordenave teceu considerações sobre o tratamento dado pela mídia brasileira a dois importantes aspectos das relações bilaterais entre Brasil e Paraguai, as negociações referentes ao tratado da hidroelétrica de Itaipu e os trabalhadores rurais brasileiros que vivem no Paraguai, os chamados "brasiguaios". O entrevistado aponta que "25% da energia brasileira vem de Itaipu, a preço de custo, beneficiando a indústria do centro do Brasil", fato que torna mais baratos os produtos industriais brasileiros para o mercado. Nesse sentido, Bordenave aponta que os pontos fundamentais relativos a essa questão diz respeito o preço, barato para o Brasil; e à disponibilidade de energia para vender, uma vez que pelo acordo, o Paraguai apenas pode comercializar o excedente de energia que não é utilizada para o Brasil.

Quanto ao tema dos "brasiguaios", Bordenave observa que "existe algo em torno de 300 mil brasileiros na fronteira", fato "que vem alterando a cultura do país". Pois, segundo o entrevistado, "em toda a fronteira, não se escuta rádio paraguaia, não se vê televisão paraguaia, os meninos já não falam nem castelhano nem guarani, só português. E não é culpa das pessoas, é culpa da situação económica efetiva". Explicitando um quadro marcado pela permeabilidade da mídia brasileiro no território paraguaio, que leva os seus conteúdos, a sua visão dos fatos para uma audiência híbrida.

Outro importante relato trazido por Bordenave, foi a sua visão acerca dos reclamos de paternidade envolvendo o presidente Lugo. Contextualizando, por meio de elementos da história paraguaia, sobretudo relacionados à Guerra da Tríplice Aliança, que devastou a população masculina do Paraguai. Surgindo a ideia da necessidade de repovoamento do país, fazendo com que fato de homens terem filhos fora do casamento se naturalizasse no imaginário da população, sobretudo do interior.

 

Reflexões finais

O interesse pelo relato de Bordenave surgiu com o intuito de compreender os aspectos políticos, sociais, comunicacionais e ideológicos que marcaram os novos tempos do Paraguai. Além disso, do nosso ensejo de pensar os procedimentos metodológicos para o desenvolvimento da pesquisa e para a problematização dos marcos conceituais que a permeiam. Como Bourdieu (1998) assinala, os procedimentos da pesquisa são definidos com a prática.

Da mesma forma, Freire (1990: 41), atenta para a necessidade de se pensar o método refletindo as ações empreendidas, como forma de levar a cabo a investigação e obter bons resultados, o que "significa inventar métodos com os quais trabalhar de maneira que as pessoas não sejam meros objetos".

Nesse sentido, os dados obtidos através do relato trazido pelo entrevistado ofereceram-nos significativa compreensão de componentes históricos e simbólicos para refletir o problema de pesquisa e pensar aportes metodológicos e conceitos que dialoguem com a temática estudada.

Assim, percebemos a importância da utilização dessa técnica em pesquisas de base qualitativa nos estudos de processos midiáticos, que no nosso caso, apresentou-se como um instrumento privilegiado na coleta de dados, permitindo realizar importantes contextualizações da realidade estudada. Conforme Bosi (1994), os relatos advindo da história oral se apresentam como ímpares e importantes, pois "na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado" (BOSI, 1994: 55).

Ao longo do presente artigo buscamos percorrer a trilha que envolve a construção do nosso problema através da fala de Juan Diáz Bordenave, que se apresentou como suscitadora para dimensionar o novo horizonte guarani, marcado pela ascensão novo ator político e midiático - Fernando Lugo. Um próximo passo seria problematizar a apresentação desse horizonte no âmbito das estratégias de comunicação empregadas pela mídia impressa brasileira para representar o presidente paraguaio.

 

Notas

1. Os missionários do Verbo Divino se constituem como uma congregação da Igreja Católica que forma e envia missionários para diversos países do mundo, com o objetivo de pregar o evangelho.

2. Expressão guarani - idioma falado por 87% da população paraguaia - que quer dizer "igualdade". O Tekojoja é composto por líderes sociais, intelectuais, operários, camponeses, estudantes, artistas, políticos que não são originários dos partidos tradicionais, enfim, trata-se de um grupo que busca pensar politicamente os movimentos sociais que fazem parte.

3. Como exemplo dessa modalidade de entrevista, podemos citar as pesquisas de opinião, eleitorais, mercadológicas, de audiência.

4. Observamos que essa modalidade de entrevista atende principalmente a finalidades exploratórias, sendo comumente utilizada com o objetivo de conseguir detalhamento de questões e formulações mais precisas dos conceitos relacionados, ou seja, constitui-se como uma forma de explorar mais amplamente um tema.

 

Referências Bibliográficas

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Recepción: 25/08/2009

Aprobación: 22/12/2009

 

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